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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Uma Viagem Enogastronômica pelo Douro

UMA VIAGEM ENOGASTRONÔMICA PELA REGIÃO DO DOURO

No final do ano passado resolvemos, eu e dois amigos, empreender uma viagem pela região do Douro, com o objetivo principal de conhecer melhor as vinícolas e os melhores vinhos produzidos por lá, além de explorar a excelente culinária portuguesa.

Nossa aventura enogastronômica começou, de fato, longe do Douro. Como nosso vôo chegou a Lisboa, dormimos a primeira noite em Cascais e aproveitamos para conhecer o excelente hotel Fortaleza do Guincho e seu restaurante estrelado pelo Guia Michelin (1 estrela). O hotel é um 5 estrelas, participante dos hotéis Relais & Chateaux, construído à beira de uma bela praia a partir de um forte militar do século XVII.

Cascais é uma simpática e bela cidade litorânea, próxima a Lisboa, que certamente merece ser visitada em uma viagem a Portugal. As opções são: passar apenas o dia por aqui e ficar em Lisboa ou passar alguns dias curtindo o ambiente de praia e as opções gastronômicas da cidade.

O jantar no restaurante do Fortaleza do Guincho foi excelente, justificando a estrela do Michelin. No cardápio, Foie Gras com chutney de figos com gengibre e geléia de Moscatel de Setúbal de entrada e um lombo de cabrito montês assado com marmelos e pêras escalfadas com vinho madeira, knepfle de queijo fresco e molho de vinho tinto como prato principal. Uma primeira noite memorável.

No Fortaleza do Guincho encontramos uma das melhores cartas de vinho da viagem. Iniciamos a noite com um belo Champagne e, a seguir, tomamos duas jóias do Douro que estavam listadas em nossos objetivos e que estão entre os melhores que tomamos nesta viagem. Os vinhos da noite foram:

  • Champagne Laurent-Perrier Millésime Brut 1999 (91 pontos da Wine Spectator)
  • Niepport Batuta 2004 – com 96 pontos na minha avaliação (95 pontos do Parker e 91 pontos da Wine Spectator)
  • Quinta do Vallado Reserva 2007 – com 95 pontos na minha avaliação (92 pontos do Parker e 96 pontos da Wine Spectator)

Na sequência, a caminho do Douro, paramos para almoçar no pequeno vilarejo de Óbidos, em um restaurante simples, mas recomendado: a Ilustre Casa de Ramiro. Aqui experimentamos um prato tradicional de Portugal, o Arroz de Pato. Embora com uma carta mais modesta que o Fortaleza do Guincho, encontramos duas preciosidades, um deles classificado entre os melhores da viagem:

  • Quinta do Vale Meão 2004 – 95 pontos na minha avaliação (93 pontos do Parker e 97 pontos da Wine Spectator)
  • Quinta do Côtto Grande Escolha 1994 – 93.5 pontos na minha avaliação (87 pontos da Wine Spectator).

Óbidos é uma vila do século XIV cercada por muralhas. A cidade foi restaurada e uma caminhada por suas vielas, curtindo o comércio turístico que se instalou aqui, é muito agradável. Vale também subir no alto das muralhas para ter uma bela vista da cidade - uma foto digna de cartão postal. Ou seja, Óbidos certamente vale uma visita se você estiver em Portugal!

Ao final da tarde chegamos finalmente à Cidade do Porto. Nossa hospedagem aqui talvez tenha sido a de melhor relação custo/benefício da viagem. O hotel Eurostars da Rua Mestre Guilherme Camarinha não tem grandes sofisticações, mas oferece muito conforto com preço acessível.

Tínhamos alguns restaurantes recomendados para experimentarmos no Porto, mas optamos por seguir a sugestão do recepcionista do nosso hotel e fomos ao Restaurante Dom Tonho, às margens do Rio Douro, de frente para Vila Nova de Gaia. Após cerca de uma hora de espera finalmente conseguimos nossa mesa e tivemos um belo jantar, com vários petiscos portugueses e um bom bacalhau. Como não encontramos nenhum vinho de nossa lista de objetivos, na safra desejada, com exceção de um Barca Velha, optamos por seguir a sugestão do sommelier e degustamos os seguintes vinhos:

  • Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Reserva 2008 – 91.5 pontos na minha avaliação (89 pontos da Wine Spectator)
  • Chocapalha Reserva 2007 (Vinho Regional Lisboa) – 92 pontos na minha avaliação - (89 pontos do Parker)
  • Porto Calem Tawny 10 anos

A hora que gastamos à espera da mesa no Dom Tonho foi muito agradável, pois a vista noturna à beira do Rio Douro é espetacular. De fato, a Cidade do Porto é uma belíssima cidade. A vista às margens do Rio Douro (incluindo a vista a partir de Vila Nova de Gaia) e a vista da parte alta da cidade são magníficas. Certamente uma das mais belas cidades de Portugal.

Na segunda-feira pela manhã iniciamos nossa peregrinação pelas caves das vinícolas do vinho do Porto, que estão todas localizadas em Vila Nova de Gaia. Começamos pelas Caves da Graham’s, que nos proporcionou uma elucidadora visita, conduzida por uma muito simpática atendente, onde tivemos oportunidade de comparar diferentes vinhos do porto produzidos pela Graham’s:

  • Late Bottled Vintage 2006
  • Six Grapes Ruby Reserve
  • The Tawny
  • Tawny 20 anos
  • Quinta dos Malvedos 1999
  • Vintage 1994 (96 pontos do Parker e 95 pontos da Wine Spectator)
  • Tawny 30 anos
  • Quinta do Vesúvio 2003

A Graham’s é uma das estrelas do Douro quando se trata de vinhos do Porto. Seus vinhos vintages alcançam facilmente pontuações entre 95 e 98 pontos. Uma das principais quintas da marca é a Quinta do Malvedos, localizada em São Memede Tua, motivo de nossa visita na quinta-feira.

No almoço de segunda-feira, seguindo sugestão de nossa anfitriã da Graham’s, fomos ao restaurante Bacalhoeiro, onde comemos um bacalhau decente, mas sem destaque. Os vinhos que experimentamos aqui foram:

  • Post Scriptum de Chryseia 2009 – 89.5 pontos na minha avaliação
  • Chryseia 2007 – 91 pontos na minha avalição (92 pontos do Parker e 93 pontos da Wine Spectator)

Na noite da segunda fomos para mais uma aventura estrelada do Guia Michelin (1 estrela), o restaurante Largo do Paço, no Hotel Casa da Calçada (também classificado como Relais & Châteaux), na pequena cidade de Amarante. A viagem de cerca de 1 hora valeu a pena, pois aqui encontramos uma das melhores experiências enogastronômicas da viagem. Optamos por um menu degustação, para experimentar a habilidade do chefe, que contou com (sem contar as sobremesas): canneloni de lavagante e bombom de sapateira com maracujá, abacaxi e flores; tataki de atum com chutney de tamarilho e gengibre...; polvo glaceado...; carabineiro de Sagres cozido a baixa temperatura....; Alheira de Mirandela; Cherne e Choco do Atlântico; e Novilho Alentejano maturado. Os vinhos foram aqueles sugeridos para acompanhar o menu degustação (sem nenhum grande destaque):

  • Quinta da Calçada branco
  • Cartuxa branco colheita 2008
  • Quinta do Vallado Touriga Nacional Rose 2010
  • Lavradores de Feitoria Três Bagos 2010
  • Paço dos Cunhas de Santar, Vinha do Contador 2009
  • Lavradores de Feitoria Meruge 2005 (86 pontos do Parker)
  • Rozès Porto Reserve

Não tivemos oportunidade de visitar Amarante, pois saímos do jantar já perto de meia-noite, mas, pelo pouco que vimos, certamente vale a pena passar um ou dois dias nesta pequena e charmosa cidade.

Na terça-feira continuamos nossa jornada com uma visita às Caves da Fonseca e Taylor. Após uma recepção um tanto comercial (pelo responsável pela exportação), acabamos almoçando no restaurante da própria Cave, cuja existência desconhecíamos. Um bom almoço, sem nenhum grande destaque culinário, regado a um bom vinho (mas também sem maiores pretensões):

· Crasto Superior 2009

Uma das principais vinícolas das Caves Fonseca e Taylor é a Quinta do Panascal, localizada em Valença do Douro, à qual tivemos oportunidade de visitar nos dias seguintes da viagem.

Dedicamos a tarde de terça-feira para andar pelo centro histórico da cidade do Porto, visitando as igrejas e suas torres, as ruelas, a livraria Lello, considerada uma das mais belas do mundo, e o café Majestic, um local com belíssima arquitetura e decoração, excelente pedida para um breve descanso em um dia de caminhada pelo centro da cidade do Porto. Belos lugares e belas vistas da cidade. Enfim, a confirmação do quão bela é a cidade do Porto.

À noite, para nos despedirmos da Cidade do Porto, voltamos ao restaurante Dom Tonho para experimentar o famosíssimo e esperado Barca Velha 1966 (o Barca Velha é o mais famoso vinho de Portugal, desejado por todos os enófilos). Novamente, uma boa experiência gastronômica, com bons aperitivos portugueses e um bom prato de vitela. Os vinhos da noite foram:

· Barca Velha 1966 – 94.5 pontos na minha avaliação

· Evel Reserva 2008 – 90 pontos na minha avaliação

· Um número incontável de diferentes taças de Vinho do Porto.

Na quarta-feira seguimos para o interior, para finalmente chegarmos à região produtora dos vinhos do Douro. Esta é uma das mais belas regiões produtoras de vinhos do mundo. O rio Douro corre por um vale cercado de montanhas e encostas, onde são plantadas as uvas, formando um visual deslumbrante (veja foto no texto sobre a região do Douro, já postado).

Nossa primeira visita no Douro foi à vinícola Quinta do Panascal, vinícola cuja reputação data do século XVIII e que hoje produz vinhos para a marca Fonseca. Aqui são produzidos grandes vinhos da Fonseca, com fermentação em lagar tradicional e pisa a pé. Um belo lugar, uma bela vinícola e belos vinhos. Dois vinhos que nos impressionaram aqui foram os Fonseca Tawny 20 anos e 40 anos.

Na quarta almoçamos no restaurante LBV, dica da nossa anfitriã na Quinta do Panascal. Uma boa comida (lombinho de vitela com mostarda) em um ambiente simples, mas acolhedor, localizado à beira do rio Douro. Na carta de vinhos encontramos mais uma preciosidade da nossa lista, mas não na safra correta:

  • Quinta do Crasto Touriga Nacional 2005 – 91 pontos na minha avaliação (91 pontos do Parker e 94 pontos da Wine Spectator)

À tarde visitamos a Quinta do Noval, na cidade de Pinhão, uma vinícola com grande tradição em vinhos do Porto e também com boa qualidade em secos tintos. O seu vinho do Porto Nacional é um ícone e uma raridade, alcançando preços espetaculares. Fomos muito bem recebidos na vinícola, tendo a oportunidade de visitar os vinhedos (inclusive o que produz o Nacional). Uma curiosidade a se registrar aqui é que a Noval não faz, atualmente, a maturação dos seus vinhos do Porto em Villa Nova de Gaia, optando por fazê-lo em galpões com temperatura/umidade controlados, localizados no entorno da vinícola.

A noite resolvemos jantar no hotel em que estávamos hospedados (Pousada do Barão de Forrester, em Alijó), cujo restaurante havia ganho um prêmio sobre comida tradicional de Portugal. A comida, embora boa, não impressionou, mas tomamos excelentes vinhos (um deles da nossa lista de preciosidades, na safra correta!):

  • Quinta do Noval 2007 – 93.5 pontos na minha avaliação (91 pontos do Parker e 95 pontos da Wine Spectator)
  • Quinta Vale D. Maria 2008 – 90.5 pontos na minha avaliação (93 pontos do Parker e 90 pontos da Wine Spectator)

Na quinta-feira iniciamos o dia visitando a Quinta dos Seixos, em Pinhão, que produz os vinhos da Sandeman. Uma belíssima vinícola, em termos de arquitetura, mas uma visita meramente protocolar e turística. Ou seja, embora a vinícola seja bonita, em termos de conhecimento sobre o mundo dos vinhos do Douro esta não é uma boa escolha.

No almoço fomos ao restaurante do hotel Vintage House. Um belo e agradável lugar, que nos lembrou alguns excelentes restaurantes que havíamos encontrado em Mendoza, na Argentina. Uma excelente comida (vieiras de entrada seguido de um belo bacalhau) e uma carta de vinhos muito boa (há uma boa loja de vinhos anexa ao hotel). Aqui experimentamos outro famoso vinho do Douro:

  • Casa Ferreirinha Reserva Especial 2003 – 94.5 pontos na minha avaliação.

Na parte da tarde fomos à Quinta dos Malvedos, em São Memede Tua. A Malvedos é uma belíssima quinta localizada às margens do Douro e é considerada a espinha dorsal dos vinhos do porto vintage da Graham’s. Uma recepção agradável, mas infelizmente acabamos não provando nenhum vinho, pois chegamos muito atrasados à vinícola, mas já havíamos provado toda a gama ao visitar a cave da Graham’s no Porto.

Nesta noite fomos jantar no restaurante do hotel Romaneira – Quinta dos Sonhos, que também faz parte da rede Relays & Chateaux. Um fantástico hotel, cuja proposta é fornecer total privacidade aos hóspedes e clientes, o que talvez justifique a clientela estrelada que passa por aqui. O jantar é servido nas diversas dependências do hotel, sem que os hóspedes e clientes se vejam ou se encontrem uns aos outros. Um bom menu degustação, mas uma falha imperdoável para o nível do lugar: não há uma carta de vinhos, estando disponíveis apenas os vinhos produzidos na quinta. Logo, o (bom) vinho da noite foi:

  • Romaneira Reserva 2008 – 93 pontos na minha avaliação (91 pontos da Wine Spectator)

Na sexta-feira, nosso penúltimo dia no Douro, começamos o dia visitando a Quinta do Crasto, onde se faz um dos melhores vinhos da região. Uma recepção acolhedora, seguida de uma visita detalhada às dependências da vinícola e explicações detalhadas sobre todos os processos (da plantação ao engarrafamento). A degustação final, no entanto, deixou a desejar, pois não cobriu os tops da vinícola. Mas acabamos experimentando-os nos almoços e jantares da viagem.

No nosso penúltimo dia no Douro fomos almoçar no restaurante Castas e Pratos em Peso da Régua. Um local agradável com boa comida e boa carta de vinhos. Só tivemos tempo para um vinho:

  • Quinta do Vallado Touriga Nacional 2009 – 90.5 pontos na minha avaliação

Na parte da tarde visitamos nossa última vinícola do Douro, a Quinta do Vallado. Mais uma recepção calorosa, seguida de uma visita detalhada às dependências da vinícola e uma degustação de toda a gama de vinhos da quinta. A Quinta do Vallado produz excelentes tintos secos, dentre eles o Quinta do Vallado Reserva, um dos destaques da nossa viagem.

O último jantar que tivemos na região do Douro foi o melhor de todos. O restaurante DOC certamente merece uma estrela do Guia Michelin, embora não a tenha. Um menu variado e de altíssima qualidade e uma belíssima carta de vinhos, com oferta de vinhos fantásticos, certamente o melhor conjunto de vinhos que tomamos em um só lugar na viagem. Realmente um lugar para se voltar inúmeras vezes. Encontramos aqui algumas preciosidades às quais estávamos em busca:

  • Quinta do Vale Meão 2007 – 93.5 pontos na minha avaliação (94 pontos do Parker e 95 pontos da Wine Spectator)
  • Fojo 2000 – 94 pontos na minha avaliação (95 pontos do Parker e 94 pontos da Wine Spectator)
  • Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2004 – 95.5 pontos na minha avaliação (95 pontos do Parker e da Wine Spectator)
  • Pintas 2007 – 93.5 pontos na minha avaliação (93 pontos do Parker e 90 pontos da Wine Spectator)

Nosso último jantar em Portugal foi em Lisboa, no restaurante Tavares, classificado com uma estrela do Guia Michelin. Embora o ambiente do restaurante seja muito bonito e o atendimento muito bom, a qualidade da cozinha certamente não merece a estrela que tem, não tendo oferecido nada de extraordinário. A carta de vinhos também deixou a desejar. O vinho da noite foi:

  • Lavradores de Feitoria Grande Escolha 2004 – 91 pontos na minha avaliação (92 pontos do Parker).

Ao final, uma bela viagem, com excelentes experiências enograstronômicas, na companhia de amigos que tornam tudo mais agradável.

Para resumir, os cinco melhores restaurantes da nossa viagem, em termos gastronômicos, foram:

  • DOC, na região do Douro, próximo à cidade de Pinhão.
  • Fortaleza do Guincho, em Cascais.
  • Largo do Paço, em Amarante.
  • Romaneira - Quinta dos Sonhos, em Alijó.
  • Vintage House, em Pinhão.

Já os cinco melhores vinhos foram:

  • Niepport Batuta 2004 – 96 pontos na minha avaliação – tomado na Fortaleza do Guincho – Importado pela Mistral – R$ 300
  • Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2004 – 95.5 pontos na minha avaliação – tomado no DOC – Importado pela Qualimpor – R$ 600
  • Quinta do Vallado Reserva 2007 – 95 pontos na minha avaliação – tomado na Fortaleza do Guincho – Importado pela Expand – R$ 236
  • Quinta do Vale Meão 2004 – 95 pontos na minha avaliação – tomado na Ilustre Casa de Ramiro – Importado pela Mistral – U$ 185
  • Barca Velha 1966 – 94.5 pontos na minha avaliação – tomado no Don Tonho – Não localizado no Brasil
  • Casa Ferreirinha Reserva Especial 2003 – 94.5 pontos na minha avaliação – tomado no Vintage House – Importado pela Zahil – R$ 413

Esta é uma viagem que pretendo repetir, pois foi realmente agradável e prazerosa.

Boas degustações e boa viagem....

Abraço,

Brito.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Que falta faz o bom senso!

Bom Senso e Canja de Galinha Não Faz Mal a Ninguém!

Este ano havia participado das rodadas finas de Roland Garros e tinha planejado também participar das rodadas finais do USOPEN. Assim, parti de São Paulo na segunda-feira (06/09) em direção a New York, gastando todas as milhas que tinha em uma viagem de primeira classe.

Estávamos já a caminho da pista de decolagem, após terminar nossa Champagne, quando o avião parou sem motivo aparente. Após alguns minutos, ouvimos a mensagem que as portas do avião seriam abertas, mas que devíamos permanecer sentados em nossos lugares.

Estranhando o procedimento, alguns passageiros questionaram uma das “aero-muito-velhas” (é amigo, em vôo de companhia aérea americana não tem aeromoça, a soma da idade da tripulação do meu avião devia ser quase igual à idade da Terra) sobre o motivo da parada.

A situação foi mais ou menos a seguinte: havia uma família de judeus ortodoxos no avião, composta de 7 (ou 10, dependendo da versão) pessoas. Todos estavam na classe econômica (ou animal class, como define um amigo) e havia uma mulher na classe executiva. A mulher estava tentando alguma mudança de lugar, que não ficou clara para nós, e acabou violando uma daquelas regras de segurança básica para decolagem. Ao ser abordada pela “aero-muito-velha”, a tal mulher teria agido com descaso e mandado a tripulante passear. Final da história, a “aero-muito-velha” reclamou com o comandante, que parou o avião a caminho da pista de decolagem e determinou que toda a família fosse retirada do avião.

Ou seja, um desentendimento simples, que poderia ser facilmente resolvido com um pouco de flexibilidade e bom senso, resultou na interrupção do vôo, intervenção policial e retirada de toda uma família do avião. Como se isto não bastasse, os procedimentos de segurança para casos de desembarque de passageiro impõem que as bagagens despachadas sejam retiradas do avião e que se faça um rastreamento para verificar se alguma bagagem de mão não foi deixada propositalmente no avião. Resultado: cerca de quarenta minutos parados esperando a situação se resolver. Como o tal do bom senso faz falta!

* * *

No metrô, indo para o torneio no primeiro dia, vejo um cidadão com aparência de mexicano, de baixa estatura, com roupas muito largas e cheio de tatuagens, brincos, piercings e anéis em todos os dedos. Mas o que mais me chamou a atenção não foi o cabelo de moicano, nem a fisionomia de bandido de brinquedo, nem as muitas tatuagens e adereços, mas um dos anéis do cara, que era uma chupeta de criança. Acho que nunca vi figura mais ridícula em toda minha vida...

* * *

Minha programação no USOPEN começava na terça-feira às 13:00 horas, com um jogo de oitavas-de-final (Wawrinka x Querry). Como a previsão era passar umas boas horas no ambiente do torneio, levei uma pequena mochila com alguns itens básicos (protetor solar, livro, boné, etc). Já tendo passado pela revista usual no setor de segurança fui barrado por uma espécie de supervisor dos seguranças. No começo não consegui entender bem o motivo e achei que era o tamanho da minha mochila (que era pequena). Ao ver passar ao meu lado uma mulher com uma bolsa duas vezes maior que a minha mochila questionei o supervisor sobre o motivo de eu ter sido barrado e recebi a seguinte explicação: o problema é que minha mochila tinha duas alças, para poder ser pendurada nas costas. Pasmo com a resposta, perguntei ao cara se eu poderia entrar se cortasse uma das alças e ele me respondeu que sim! Ou seja, o mega gênio que estabeleceu os procedimentos de segurança criou alguma correlação entre o número de alças de uma bolsa e o perigo que ela representa. Eu realmente gostaria de ter a oportunidade de conversar pessoalmente com este cara! Por sorte, eles tinham criado um lugar para que os pouco informados como eu pudessem deixar suas bolsas (ao modesto custo de US$ 5,00), com o único inconveniente de ter de andar cerca de 10 minutos para chegar ao local.

Finalmente dentro do complexo, ao me dirigir para o Artur Ashe Stadium, me deparo com um policial e um grande e belo cachorro pastor alemão deitado a seus pés. Ao olhar para o cachorro vejo que ele está de crachá!!! Isto mesmo amigo, crachá para o cachorro com foto e tudo.

Que falta faz o bom senso!!! E pensar que estes caras dominam o mundo!!!

Felizmente, a partir daí, foi só alegria, com um torneio fantástico, mas isto é motivo para outra conversa.

Abraço a todos,

Brito.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Viajando pela Borgonha - Parte II

Viajando pela Borgonha – Parte II

A rota dos Grands Crus da Borgonha é uma estrada secundária que liga Dijon a Beaune, no coração da região dos grands crus. São cerca de 45 km de estrada, passando, dentre outros vilarejos, por Fixin, Gevrey-Chambertin, Morey-St-Denis, Chambolle-Musigny, Vougeot, Vosne-Romanée, Nuits-St-Georges, Aloxe-Corton e, finalmente, Beaune. Ao sul de Beaune ainda há várias outras vilas importantes, como Pommard, Volnay, Puligny-Montrachet e Chassagne-Montrachet. O tempo para percorrer este trajeto depende de quantas vilas e vinícolas você quer visitar.

O ponto central da região de Côte d’Or é a pequena cidade de Beaune, com 22.000 habitantes. O centro velho da cidade, que é onde estão as principais atrações, pode facilmente ser explorado a pé em um único dia. Há dezenas de lojas de vinhos oferecendo degustações, vários bar à vin que oferecem uma grande variedade de vinhos em taça, cafés, restaurantes, brasseries, etc. Ou seja, há dezenas de oportunidades para explorar os vinhos e a culinária da Borgonha, em uma vila pequena, charmosa e agradável.

A grande atração turística de Beaune é o Hotel-Dieu. Originalmente uma hospedaria, fundada em 1443, hoje o prédio é uma jóia arquitetônica medieval que abriga várias obras de arte religiosas, além de uma espécie de museu. Seus telhados coloridos vitrificados oferecem um visual deslumbrante e são um espetáculo à parte.

Em minha última visita a Beaune, ao sair do Hotel-Dieu, nos deparamos com uma espécie de feira de espumantes da Borgonha. Vários produtores estavam expondo seus vinhos para degustação, com a única condição de que se comprasse uma taça de degustação, que estava à venda por E$ 3. Compramos a taça e experimentamos uma meia dúzia de bons vinhos (o foco era: espumantes da Borgonha). Junto com a exposição estava ocorrendo alguns eventos da escola de vinhos da Borgonha, infelizmente em Francês. Mas, mais do que os vinhos e as palestras, o que nos chamou a atenção foi a forma que eles utilizaram para ilustrar as diversas famílias de aromas que podemos encontrar em um vinho. Eles criaram um espaço com vários decanters gigantes (veja foto no álbum), cada um contendo produtos naturais daquela família aromática (por exemplo, para ilustrar o aroma de frutas vermelhas havia um decanter com vários tipos de frutas vermelhas). Esta experiência sensorial foi realmente interessante; pena que são necessários muito espaço e muito dinheiro para reproduzir este experimento em nossas degustações.

Em termos gastronômicos, há dois restaurantes com uma estrela do Guia Michelin na cidade, além de mais dois localizados nos arredores.

Uma boa dica é o restaurante Loiseau dês Vignes (http://www.bernard-loiseau.com/FR/BOURGOGNE/vignes/), no centro histórico de Beaune. Um local aconchegante, com cozinha de alta qualidade (uma estrela) voltada para pratos clássicos da culinária local. Há uma grande oferta de vinhos em taça, o que abre possibilidades interessantes de harmonização. Uma boa escolha é pedir o menu degustação, E$ 75 (sem a bebida), e ir tentando harmonizar cada prato servido com um vinho diferente.

Mas nem tudo são rosas em uma viagem como esta. No segundo dia em Beaune, no almoço, escolhemos um restaurante ao acaso no centro da cidade e tivemos a primeira surpresa negativa: pedimos um prato que tinha no nome Confit de Canard (não entendemos o resto por falta de habilidade com a língua francesa) e comemos, na verdade, uma espécie de escondidinho de pato desfiado, decepcionante. Nem o vinho, que também foi escolhido ao acaso, impressionou. Ou seja, esquece...

Na segunda noite saímos para jantar sem ter feito reserva, pois não era alta temporada, e encontramos todos os restaurantes da minha lista lotados. Acabamos voltando para o hotel e tendo um jantar mais modesto do que o planejado, embora bom. Lição aprendida: não custa nada dar um telefonema e reservar o restaurante logo que chegar à cidade ou mesmo mandar um e-mail com alguns dias de antecedência com o mesmo objetivo.

Visitar vinícolas na Borgonha não é muito simples. Muitas delas são muito pequenas e não é possível sequer encontrar um ponto de contato para solicitar a visita. Há algumas poucas vinícolas grandes em que isto é mais fácil, como Louis Jadot e Joseph Drouhin.

Vale ressaltar que a visita a vinícolas é importante, principalmente quando é realizada de forma mais intimista e não turística, para adquirir conhecimentos sobre os métodos e técnicas da região a partir de conversas com quem faz! No entanto, entre uma visita meramente turística, na qual você será burocraticamente atendido junto com um grupo de dezenas de pessoas, e uma boa tarde gasta em um bom bar à vin, onde você terá oportunidade de degustar vários vinhos de várias regiões, fique com a última opção.

Em minhas duas idas à Borgonha tentei visitar vinícolas menores, nas quais teria mais chance de conversar com o enólogo ou mesmo com o proprietário. As três vinícolas que visitei foram:

Chateau de La Tour Clos de Vougeot: a vinícola foi construída em 1890 e possui 6 hectares de videiras (a maior de Clos de Vougeot). O chateau trabalha com produtividade baixa na videira, 29 hectolitros por hectare, permitindo a vinificação de vinhos diferenciados. A fermentação é feita em aço inoxidável e o amadurecimento utiliza barrica nova de carvalho francês em função da estrutura de cada safra. Aromas esperados para o vinho são: trufas, alcaçuz, violeta e menta. O atendimento na vinícola não é bom e você não irá obter informações técnicas sobre o processo de vinificação, mas poderá degustar algumas poucas safras a um preço razoável

Domaine Chandon de Briailles: este domaine (http://www.chandondebriailles.com/) é de propriedade da mesma família desde 1834, tendo como sede um belo prédio localizado na village de Savigny-les-Beaune. São 13 hectares de videiras distribuídas igualmente em três villages: Savigny-les-Beaune, Pernand-Vergelesses e Aloxe-Corton. A vinícola recebeu 2 estrelas, de um máximo de 3, do livro The Wines of Burgundy de Clives Coates. A produtividade é, em média, de 35 hectolitros por hectare. Os vinhos tintos são fermentados em tanques de concreto, enquanto os brancos utilizam barricas de carvalho. O amadurecimento dos vinhos tintos se dá em barricas de carvalho por um período entre 18 e 24 meses.

O domaine produz nove vinhos: dois premiers crus de Savigny-les-Beaune (Aux Fourneaux e Les Lavières); dois premiers crus de Pernand-Vergelesses (Ile des Vergelesses e Les Vergelesses); um premier cru de Aloxe-Corton (Les Valozières) e quatro grands crus de Corton (Les Maréchaudes, Les Bressandes, Le Clos du Roi e Le Charlemagne).

Nesta vinícola fomos muito bem recebidos, em uma visita exclusiva, pelo proprietário, François de Nicolay, que nos explicou a filosofia da casa e nos brindou com uma degustação, realizada entre seus barris no subsolo da vinícola, de seis de seus melhores vinhos. Destes, dois merecem destaque: Savigny-les-Beaune 1er cru Les Vergelesses 2006 e Corton Grand Cru Les Bressandes 2001.


Infelizmente, Nicolay não exporta para o Brasil!

Enquanto nos explicava suas técnicas e métodos, Nicolay soltou, ao se referir ao processo de fermentação, uma pérola: “aço inox é bom para leite e não para vinho”.

Domaine Michel Gros: Esta foi a terceira vinícola que visitamos (http://www.domaine-michel-gros.com/). É uma vinícola 3 estrelas do livro The Wines of Burgundy de Clives Coates e fica na região de Vosne-Romanee, possuindo 19 ha de videiras. Esta vinícola também possui uma boa gama de vinhos da Borgonha. Degustamos cinco vinhos, todos bons, com destaque para o vinho Vosne-Romanée 1er Cru Clos de Réas 2005.



O atendimento aqui, embora bom e também exclusivo, foi mais burocrático que aquele que recebemos na Chandon de Briailles.

Por fim, vale destacar também a visita ao Chateau Clos de Vougeot, principalmente pelo aspecto histórico.

Nesta etapa da viagem degustamos 25 vinhos, dos quais se destacaram os três listados acima.

Após deixar Beaune é hora de pegar novamente a rota dos vinhos e dirigir, parando obviamente nas principais villages, na direção de Beaujolais, próxima parada no nosso roteiro.

Mas isto é história para outro texto.

Para visualizar algumas fotos da viagem, visite o facebook ou http://picasaweb.google.com/jose.marcos.brito/ViajandoPelaBorgonhaParteII

Abraço a todos,

Brito.

domingo, 28 de novembro de 2010

Viajando pela Borgonha - Parte I

Viajando pela Borgonha – Parte I

Vindo da Alsácia, a porta natural para entrada na Borgonha é a cidade de Dijon.

Dijon é próxima ao início da “Rota dos Grands Crus da Borgonha” e é um excelente ponto de partida para visitar esta que é uma das principais regiões vinícolas da França e do mundo.

Dijon é uma cidade com cerca de 150 mil habitantes, com um belo centro histórico que pode ser facilmente percorrido a pé em um dia. Os pontos altos estão relacionados à arquitetura das igrejas e outras construções. Logo, é preciso percorrer as ruas com calma e atenção para desfrutar a beleza que elas podem proporcionar.

Os principais destaques de Dijon são: a igreja gótica de Notre-Dame, do século XIII, com suas gárgulas; a fachada da igreja de St. Michel, com belíssimos detalhes esculpidos em seu portal; e o Palais dês Ducs, onde atualmente está a prefeitura de Dijon, uma bela construção localizada em uma praça especial.

Todo mundo já ouviu falar da mostarda de Dijon, mas em termos de gastronomia Dijon é mais do que mostarda. A cidade possui três restaurantes estrelados (1 estrela do Guia Michelin), além de contar com mais 18 estrelados nas pequenas cidades localizadas em um raio de 50 km (sendo um com duas estrelas e dois com três estrelas). Portanto, se você gosta de explorar o melhor da gastronomia mundial, precisa passar alguns dias por aqui!

Dois restaurantes que eu destacaria, localizados em Dijon, são:

Le Pré Aux Clercs (uma estrela do guia Michelin): bom restaurante, boa comida, local agradável, carta de vinho simples, preços em torno de E$ 75 (bebida não incluida). Você pode encontrar mais detalhes em http://www.jeanpierrebilloux.com/.


Hostelerrie du Chapeau Rouge (uma estrela do guia Michelin): comandado pelo chef William Frachot, este é um belo restaurante de cozinha contemporânea, mas mantendo conexão com a tradição francesa. Os menus ficam entre E$ 45 e E$ 100 (bebida não incluída). O restaurante possui uma carta de vinhos destacada, com bons exemplares da Borgonha. Maiores detalhes podem ser econtrados em http://www.chapeau-rouge.fr/.

Antes de explorar a Rota dos Grands Crus da Borgonha é preciso explorar alguns pontos turísticos fantásticos nas proximidades de Dijon.

A primeira atração é a Abadia de Fontenay, fundada em 1118, a mais antiga abadia da ordem cisterciense remanescente na França. O prédio simples, mas imponente, e seus belos jardins inspiram momentos de paz e tranqüilidade. O interior, austero e monástico, tem como pontos altos a igreja e os claustros. De Dijon até Fontenay são cerca de 80 km. Logo, é possível sair cedo de Dijon e visitar a abadia ainda pela manhã.

Saindo de Fontenay, uma boa pedida é dirigir mais 80 km e visitar a Basílica de Santa Madalena, em Vézelay. A majestosa basílica do século XII se destaca no alto do morro de Vézelay. A nave ampla com seus belos arcos de sustentação criam um ambiente mágico; as esculturas em seus pórticos, colunas e capitéis merecem um olhar atencioso.

Antes de chegar a Vézelay, no entanto, vale uma visita ao pequeno vilarejo de Semur-em-Auxois, com 5 mil habitantes. Da estrada já se pode ver as muralhas da cidade, construídas no século XIV. Como ponto alto da cidade tem-se a Igreja de Notre-Dame, dos séculos XIII e XIV.
Para ver algumas fotos destas atrações, visite:
Na semana que vem continuamos esta viagem.
Abraço a todos,
Brito.

sábado, 23 de outubro de 2010

Viajando pela Alsácia

VIAJANDO PELA ALSÁCIA

Um bom ponto de partida para visitar a Alsácia é a cidade de Estrasburgo (Strasbourg), localizada quase na fronteira com a Alemanha.

Estrasburgo é uma cidade média, com cerca de 400.000 habitantes, mas as principais atrações turísticas residem em seu centro histórico, charmoso e simpático, que pode ser facilmente percorrido a pé.

Sua principal atração é a Catedral de Notre-Dame, cuja primeira versão teve sua construção iniciada em 1015, embora a conclusão date do século XV (ano de 1439 em algumas publicações). Esta catedral gótica possui portais esculpidos em pedra de deixar o viajante boquiaberto, além de um belo interior.

Os canais que circundam a cidade velha também propiciam um belo passeio, que pode ser feito em uma caminhada ao longo de suas margens ou em um passeio de barco.

Há belas pontes cruzando o canal e o passeio proporciona um belo visual em alguns pontos.

A cidade de Estrasburgo também oferece bons restaurantes e constitui uma boa opção para se experimentar a comida da Alsácia (há quatro restaurantes com uma estrela do Guia Michelin na cidade).

Um restaurante particularmente interessante é o Maison Kammerzell, de influência alemã. Não é um restaurante estrelado, mas tem boa cozinha e é realmente bonito, com paredes e tetos lindamente pintados. Os preços estão entre E$ 30 e E$ 70 (sem o vinho).

Um dia inteiro é suficiente para visitar os principais pontos de Estrasburgo. Mas se você gosta de fazer as coisas com mais calma e tem tempo, reserve dois dias para visitar a cidade.

Após deixar Estrasburgo, antes de tomar a rota dos vinhos, minha próxima parada foi o Château du Haut-Koenigsbourg, em St. Hyppolite. Distante cerca de 60 km ao sul de Estrasburgo.

Este imponente castelo é considerado a atração mais popular da Alsácia. O castelo foi originalmente construído em 1114, mas foi destruído em 1462, reconstruído, e destruído novamente em 1633. No final do século XIX ele foi restaurado e ganhou novamente a aparência da construção original.

Da parte alta pode-se ter uma bela visão das terras do Reno fazendo divisa com a Floresta Negra e os Alpes.

Uma boa pedida é deixar Estrasburgo logo cedo, visitar o castelo e depois tomar a Rota dos Vinhos da Alsácia em direção a Riquewihr.

Após visitar o Château, é hora de tomar a “Rota dos Vinhos da Alsácia”, uma tranquila estrada secundária que te levará entre os vinhedos da Alsácia, passando por diversas vilas medievais encantadoras. São cerca de 120 km de estrada rodeada pelas principais vinícolas da Alsácia.

Minha primeira parada foi na vinícola Bott Frères, localizada na vila de Ribeauvillé. Fundada em 1835, dentre os muitos vinhos produzidos pela vinícola, há três grands crus: Grand Cru Osterberg from Ribeauville, Grand Cru Kirchberg from Ribeauville e Grand Cru Gloeckelberg from Rodern, os dois primeiros da uva Riesling e o terceiro de Pinot Gris.

Um pouco mais ao sul está a charmosa vila de Riquewihr, com cerca de 1.100 habitantes. Repleta de casas medievais e renascentistas, esta é a vila mais bonita da rota dos vinhos da Alsácia e uma das cidades mais visitadas da França.

Você se sentirá em outra época andando nas ruas de pedra e olhando para as casas com balcões floridos deste lugar encantador.

Vale a pena passar um dia e uma noite aqui (ou até mais, se você tiver tempo e uma boa companhia) para curtir o clima do local e visitar as muitas adegas de vinho e os vários restaurantes existentes (há um restaurante estrelado na cidade e mais quatro nas redondezas, incluindo um três estrelas do Guia Michelin em Illhaeusern, distante cerca de 10 km).

Ao sair de Riquewihr, continue pela Rota dos Vinhos e vá parando nas vinícolas que surgirão na beira da estrada. Selecione as vinícolas aleatoriamente ou mapeie previamente aquelas que oferecem vinhos Grands Crus.


Ao deixar a Alsácia vamos para a região da Borgonha, mas isto é assunto para outro texto.

É hora de arrumar as malas...

Abraço a todos,

Brito.

domingo, 19 de setembro de 2010

Patriotismo, "Cordeirismo" ou Imbecilidade?

Patriotismo, Cordeirismo ou Imbecilidade?

Depois de um longo vôo de cerca de 10 horas, estava no Forth Worth Airport, em Dallas, matando o tempo com um Soduku, à espera de meu próximo vôo que me levaria para Honolulu. O tempo de espera previsto era de umas três horas, das quais eu já havia gasto cerca de 1 hora simplesmente andando pela área de embarque para tentar localizar alguma coisa interessante para fazer. Havia encontrado um Wine Bar, mas infelizmente ele estava fechado e só me restavam os vários restaurantes de estilo americano para matar o tempo. Comi alguma coisa e fui me sentar perto do meu portão para ler algo, mas acabei optando por voltar ao Sodoku, que estava fazendo pela primeira vez, mas que havia me conquistado de maneira definitiva.

Embora distraído em meus pensamentos matemáticos, percebi quando um velhinho se aproximou de outro passageiro que estava a alguns metros de mim e falou algo sobre Afeganistão. Eu já havia visto este senhor perambulando pela área de embarque e havia notado um crachá de voluntário que ele carregava no peito, embora não tivesse captado sua função ou objetivo. A primeira coisa que me veio à mente quando ele mencionou a palavra Afeganistão, é que havia ocorrido alguma mudança de portão de embarque e que ele estava tentando avisar as pessoas. Alguns minutos depois ele se dirigiu a mim e novamente falou algo, que não entendi, mas que continha a palavra Afeganistão. Como eu já havia concluído que se tratava de uma mudança de portão de embarque, simplesmente respondi que eu não ia para o Afeganistão e voltei para o meu Sodoku.

Decorridos uns quinze minutos comecei a perceber uma grande movimentação ao meu redor. Logo a seguir, comecei a ouvir gritos de “obrigado” e “bem-vindo de volta ao lar”. Não conseguia entender absolutamente nada e, olhando para trás, percebi que praticamente todas as pessoas daquela ala do aeroporto estavam de pé, aplaudindo, gritando e olhando para cima. Ao acompanhar o olhar das pessoas percebi que havia um grande corredor envidraçado ao nível do segundo andar, que era utilizado para desembarque de passageiros, pelo qual estavam passando um grande número de soldados uniformizados.

Finalmente pude então compreender o que significava a referência ao Afeganistão na pergunta que o velhinho havia me feito. Aquelas pessoas que estavam desembarcando eram soldados provenientes do Afeganistão e ele havia me convidado para participar de uma espécie de cerimônia de boas vindas.

Fiquei por alguns minutos observando os soldados que desembarcavam e a reação das pessoas que estavam no saguão e que continuavam gritando, capitaneadas pelo velhinho, frases de “muito obrigado” e “bem-vindo de volta ao lar”. Aquela manifestação me causou profundo desconforto. Eu via garotos, moleques mesmo, desfilando com seus uniformes, e um grande número de pessoas gritando e aplaudindo como se eles fossem verdadeiros heróis. A pergunta que eu me fazia era: que raios essas pessoas pensam para considerar que estes moleques sejam heróis. Eles foram para longe de casa (sim), para lutar em uma guerra imbecil, criada por um governante ainda mais imbecil e, portanto, deveriam ser tratados como completos imbecis e não como heróis. Será que estas pessoas que estavam no saguão já haviam parado para pensar sobre o que realmente significava aquela empreita em um país remoto, completamente sem importância, cujos líderes, que neste momento estavam sendo combatidos, haviam chegado ao poder com a ajuda do próprio Estados Unidos em um passado não muito distante. Será que eles aplaudiriam se um de seus filhos estivesse naquele momento participando daquela guerra. Será que eles aplaudiriam se tivessem perdido um filho que fora enviado para o fim do mundo para, ao menos oficialmente, capturar um maluco que nunca foi encontrado. Acho que não!

Um pouco confuso, me sentei novamente, coloquei o fone do meu IPod para não ouvir a manifestação e voltei ao meu Sodoku. Mas não conseguia deixar de pensar: o que de fato motivou aquela manifestação: patriotismo exacerbado, que é impensável para nós brasileiros; o sentimento de rebanho que tende a acompanhar uma voz de comando, representada pelo pedido insistente do velhinho; ou simplesmente a imbecilidade de realmente se achar o xerife do mundo e aplaudir qualquer ação da nação neste sentido, desde que não envolva a mim ou qualquer um que eu ame?

Mais recentemente, neste ano no USOPEN, estava comendo um fast-food em uma mesa do complexo e de repente começei a ouvir palmas e gritos quase histéricos de entusiasmo. Levantei os olhos em busca do que estava ocorrendo, achando que encontraria o Federer ou o Nadal caminhando pelo complexo, e encontrei um grupo de pessoas fardadas (soldados?) carregando uma bandeira americana, em formação militar, em direção do estádio Arthur Ashe. Como haveria uma cerimônia de abertura naquele estádio em alguns minutos, conclui que o grupo estava carregando uma big bandeira que seria aberta na quadra. Mais uma vez pensei, o que leva este monte de gente a sair gritando de forma quase histérica ao ver um grupo de pessoas com farda carregando uma bandeira? Isto é mesmo patriotismo ou mera imbecilidade?

Sobre patriotismo eu prefiro a famosa frase de Samuel Johnson, pensador inglês do século XVIII: “O patriotismo é o último refúgio de um canalha”.

Abraço a todos,